quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Por que Pensar na Morte?



Não quero ser na sua vida o início de um fim nem o fim de um começo, quero ser o início de um começo sem fim. [I do know who say]

Aqui estou usando o Parpite de José André da Costa [1]

Nascer, morrer e desenvolver é o ritmo bio-fisiológico dos seres vivos que demarcam sua existência no mundo. Morrer não é necessariamente um destino, porém viver é um dom. Assim, a morte não é uma saqueadora da existência nem a vida é uma provisoriedade da morte. Estar na vida é ter a morte como ausência-presente, e morrer pode ser uma sábia conclusão da vida. A vida carrega a morte potencialmente, mas da morte brota a vida atualmente. O desabrochar da vida é resultado de sínteses de muitas mortes, porque é morrendo que se garante a vida permanente. A semente lançada ao chão, que não morre, não desabrocha em flor e fruto. Flor e fruto são as vitórias da vida vencendo a morte.  A verdade da árvore não está contida nela mesma, mas na semente como dom da árvore. Se a árvore não estivesse contida na semente, como potencialidade não seria possível sua atualidade de árvore. Essa é uma verdade genuína que vale para todo ser vivo. Morrer e viver é uma dialética da nossa existência. Ou no dizer de Júlio Cabrera: “o nascimento é o engano de pensar que a vida será possível com aquele que nasce, e o homicídio é o engano de pensar que a vida será possível sem aquele que morre.” Por que nós, seres humanos, fugimos ou vivemos escamoteando  esta verdade? Por que o medo da morte? Será a morte um acontecimento fatal e radical? A morte tem sentido ou é um absurdo da existência? O empenho de uma vida substantiva significa encontrar as razões para o viver que é, na verdade, dar sentido ao morrer.

 Pensar na morte e pensar a morte não significa, muitas vezes, viver a vida. A morte e a vida se implicam existencialmente. O imperativo ético da morte significa “exercitar” o morrer como um salto de qualidade de vida. Morrer não será o fim, mas será o começo de uma vida nova. Da morte da semente surge o broto novo que se desenvolve como a vida da morte. Nosso maior dilema é ter consciência de saber que viver dói, que morrer dói e que aprender dói. A morte pode ser um paradoxo, mas o morrer é um aprendizado. Para que se cresça é preciso que se morra, mas é vivendo que se encontra o sentido da morte. O sentido da morte não está ao alcance de nossas mãos, mas no horizonte da esperança. Morrer não é desesperançar, mas é esperançar. Encarando a morte nos olhos, encontraremos o sentido dela para subsumi-la na vida. A dor do morrer não significa a morte nem a dor da vida significa a morte. O morrer e o viver não são o perecer radical, mas pode ser o vir-a-ser de uma vitalidade nova. O medo da morte se vence encorajando a vida.

 A morte não é um fato extrínseco à existência do seres humanos, como também de qualquer ser vivo, mas é algo intrínseco à vida. Assim, o sentido da vida está em viver a cada instante como um passo-para-morte, fazendo da existência uma autêntica apropriação de vida. Vive-se morrendo e morrendo é que se vive autenticamente. Fingir a morte ou querer antecipá-la, é uma atitude não justificável do ponto de vista ético-moral. A vida é um valor absoluto, não cabendo a escolha de querer relativizá-la por uma escolha caprichosa ou de medo existencial. A consciência do  morrer nos põe em atividade constante. Ser criativo é fazer da vida uma obra de arte. Porém, o melhor da vida é morrer fundido na obra. Assim, a morte será o reconhecimento da vida e a vida dá sentido à morte. Portanto, ser criativo é modificar o morrer em viver. Não nascemos prontos, por isso, a cada instante estamos nos modificando e nos modificamos para nos refazermos. Aliás, o reconhecimento humano se dá quando ele se reconhece nas obras de suas mãos. Transformar a morte em vida é a obra de arte mais genuína que o ser humano pode conceber. A angústia humana, muitas vezes, se encontra na inautenticidade da existência, ou seja, na insegurança do ser humano em ser sujeito de sua obra de vida, encarando a morte como se ela fosse o fim da existência. A angústia não é só o medo da morte, mas de vez em quando entramos em pânico diante da grandiosidade da vida.

 A morte não é a finalidade da vida. A vida não finda com a morte, mas se conclui com a morte para gerar mais vida. A fé na ressurreição é a notícia nova de que a vida venceu a morte e que, apesar da morte, a vida será sempre a última palavra e não a morte. Pensar na morte é revisar nossa existência no mundo para perceber se nossa a vida está sendo uma doce passagem pela história e se nosso viver não está sendo em vão. Celebrar os nossos entes queridos neste dia finados é confirmar que sua lembrança é um existencial para nós e que morrer não é esperar, mas esperançar. Ter esperança é preciso; desesperar, não! O túmulo não é a indicação do vazio, mas da esperança que não nos engana, porque toda semente plantada, que morre, gerará muitos frutos. Na morte da semente a vida da flor desabrocha, afirmando que a vida continua, apesar da morte. Assim, semente, flor e frutos se encontrarão na festa da árvore da vida, numa permanente caminhada para o Reino da luz.

 [1] Professor e diretor geral do Instituto Superior de Filosofia Berthier – IFIBE.

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